05/04/2026
OPINIÃO EM DIA
O relógio da Igreja Matriz funciona!
O enorme relógio na torre da Igreja Matriz funciona. Isto é uma afirmação. Ele está lá, imóvel, quieto, silencioso, observando o tempo passar... ou não vendo o tempo passar. Os ponteiros não se movem. Você já notou qual é a hora exata em que ele parou? Será que parou de dia ou de noite? Num dia de semana ou, providencialmente, numa data importante à qual ninguém prestou a devida atenção?
Os sinos, seus próprios sinos, que insistentemente teimei em tocar em minha adolescência, hoje são sérios, sisudos, calados, parecem homens velhos infelizes que vivem da lembrança do seu passado glorioso. Os sinos não tocam, os ponteiros não se movem, então, como eu poderia afirmar que ele funciona, se nem serve para mostrar a hora ao incauto transeunte sem relógio?
Subi na torre do relógio há algum tempo. Fui ajudar a trocar um daqueles vidros brancos que, na verdade, não são vidros, são de plástico. E, no intervalo entre tirar um e colocar o outro, enfiei a cara na fresta voltada para o lado oeste.
Bela a visão que temos da cidade de Oscar Bressane. Daquela altura, é linda. Mereceria um quadro pintado, traço por traço, por Monet, quiçá, Da Vinci. Casas pequenas, ruas indistinguíveis. Dá para ver os telhados, muitos telhados espalhados entre árvores que ainda resistem à vontade preguiçosa de seus donos de varrer a calçada diariamente. Vê-se pessoas atravessando a praça, pessoas grandes se tornam pequenas daquela altura. Carros parecem brinquedos, objetos bonitinhos para enfeitar a estante da sala.
Olhando a cidade daquele lugar, sentimo-nos grandes, sentimo-nos enormes. Parece que tudo que circula por aquelas ruas arborizadas não importa, são pequenas demais. Que problemas podemos ver lá de cima? Nenhum. Que intrigas ouvimos lá em cima? Nenhuma, apenas o constante sussurro do vento.
Quanta coisa já presenciou aquele relógio? Viu o amor surgindo, viu casamentos, viu missas, viu uma cidade crescendo, devagar, bem devagar. Quando era o centro das atenções, as pessoas o buscavam de longe para saber as horas, mas hoje, apenas os pombos o visitam, e ele os protege, os abriga, e os malditos pombos, em agradecimento, defecam e