14/10/2022
De Carro Por Aí – “Por Roberto Nasser” in memoriam
Buenos Aires, 10 de outubro de 2022
Autoclasica 2022 – O retorno do mito
Aviso: Após quatro anos que a comunidade antigomobilista, e especialmente a alfista, não é brindada com a prazerosa coluna “De
Carro Por Aí”, que foi editada por décadas por José Roberto Nasser, ídolo de toda uma geração, resolvi fazer-lhe essa homenagem
Ghost Writer pôr ao revés em mais uma contribuição. Carlos “Casé” Garcia
Após dois anos negros a Autoclasica voltou a pintar de branco e azul claro o imaginário
antigomobilista latino-americano com sua 20ª edição. Aplacada a pandemia, o evento
voltou a brilhar sob um sol austral quase onipresente.
Na Argentina nem tudo está florido, a economia vai mal, muito mal, a moeda
desvalorizada e o povo ressentido. O Governo força um cambio artificial (nada de cartão
de crédito!) e tudo corre no paralelo pela metade do preço ou menos que no Brasil. Uma
pilha de dinheiro paga um jantar.
Inspira essa edição a crítica gastronômica do portenho Fernando Vidal Buzzi, que tinha
como lema “La única que premía y castiga”, e mostra que há de bom e mal. O hiato
temporal somado ao momento nacional afetou o evento em tamanho e formosura.
Menos carros e menos joias. Os tradicionais clubes estavam todos lá, mas a fina flor do
antigomobilismo, que sempre br**ca de mostra e esconde, parece ter economizado na
dose, mas quem deu o ar da graça mostrou impressionantes exemplares. O sempre
prestigioso Autojumble teve bem menos tiendas, provavelmente contando com bolsos
mais rasos. Desafortunadamente teceu palidez.
Nos 75 anos da Ferrari os aficionados pelo cavallino rampante fizeram uma grande festa,
mas levaram muito mais carros novos e youngtimers que as verdadeiras raridades vistas
em eventos anteriores. O destaque ficou para uma imaculada 250GT Berlineta Lusso e
uma originalíssima Ferrari 166/195 Vignale (convertida na fábrica) com pedigree de
corredora, suas marcas de batalha e a tradicional pátina. Ambos premiados.
É perceptível o crescimento acentuado na participação dos carros contemporâneos
americanos (anos 60 à frente), especialmente os pony e muscle cars, anos atrás quase
inexistentes. Nesta edição o clube com a maior exposição foi o Mustang Club Argentina,
com uma seleção de perto de 100 automóveis do modelo e outros da mesma época. Em
sua maioria carros com restaurações “melhor que o original”, como é tradicional neste
ramo do colecionismo. Contaram com grande estrutura e até banda de rock com palco
sofisticado.
Outra quase novidade foi a introdução dos “Super Autos”, iniciada na última edição de
19. De muitas formas isso fere o espírito da coisa. Neste ano foram expostos umas duas
dezenas de carros praticamente novos, e premiados (!) uma Lamborghini Huracán 2020
e uma Maclaren 675LT 2017. Ambos com cafonérrimas passagens pela elegante rampa
da honra, com direito a fortes aceleradas do primeiro e um deselegante Uruguaio que
não desembarcou a carona para receber o prêmio. Constrangeu a conservacionista plateia. Muitos sorrisos amarelos. Devem repensar premiar carro novo em evento de
antigos. Contrassenso.
Também vítima da Pandemia, o Jaguar E-Type comemorou seus 60 anos de lançamento
com um de atraso. Considerado por Enzo Ferrai o mais belo carro já produzido, o modelo
esteve muito bem representado, com uma rica paleta de impecáveis exemplares. Um
primeira série, 1962, recebeu prêmio especial.
Digno de nota é o respeito e orgulho pela história nacional retratada na Autoclasica.
Todos os anos são homenageados heróis argentinos do meio, da indústria e das corridas.
Neste ano dedicaram especial atenção a Carlos Reutman e Oreste Berta, mas a novidade
foi a homenagem aos caídos na Guerra das Ilhas Malvinas, que completam 40 anos, com
exposição de material militar usado na contenda. A FAA levou um A-4Q Skyhawk, o
carrasco das fragatas britânicas HMS Antelope e HMS Argonaut. Um jovem e orgulhoso
piloto explicava as façanhas de outrora da máquina. Por fim, justa homenagem a
Pursang em nome dos recriadores locais de clássicos, que o fazem com maestria.
O recém falecido piloto de Formula 1 Carlos Reutemann, vice campeão em 1981
pilotando a Willians FW07C, foi exposta a “B”, totalizando 12 vitórias na carreira, sendo
3 no Brasil, foi também consagrado internacionalmente pelas corridas de Formula 2 e
Rally, mas pouco se conhece fora do país sobre suas conquistas internas. Foi montando
um sitio específico para o grande piloto com vários exemplares que manejou contando
uma belíssima história.
O construtor Oreste Berta foi também homenageado. Ficou mundialmente conhecido
por sua participação na “Missão Argentina” acertando com Juan Manuel Fangio os
Torinos 380W que fizeram história em Nürburgring ‘69. Os 3 carros que correram
estavam presentes pela primeira vez juntos. Na premiação se deu especial destaque
para o Sport Protótipo Berta LR Hollywood equipado com o motor do Maverick brasileiro
que foi pilotado pelo brasileiro Luiz Pereira Bueno, concedendo-lhe o primeiro prêmio
da Categoria Competição Internacional.
Outro ponto digno de nota foi a premiação do Cadillac Phaeton 1916, sem restauração,
que recebeu o Premio FIVA por sua originalidade extrema. Não é de hoje que o Club de
Automóviles Clásicos vem perdendo essa prioridade no escrutínio.
A “Terna Best of Show” foi composta pelos incríveis Alfa Romeo 6c SS Pininfarina de
1949, Bentley 4.5 Liters Open Tourer de 1929 e Bugatti Type 57 Ventoux de 1935. Os
três fortíssimos candidatos e reconhecidos como tal durante a exposição. O primeiro foi
o escolhido pela imprensa, o segundo foi também premiado na Categoria Vintage
Europeu e o terceiro na categoria Pós-Vintage Europeu. Aberto o envelope deu Bugatti.
Merecido.
Esperamos o próximo ano e torcemos para que a Autoclasica volte a crescer.
Link para as fotos dos ganhadores: https://ar.motor1.com/news/615213/autoclasica-
2022-ganadores-cada-categoria/